O som não me era estranho, familiar até, de um passado não muito distante. Continuava a fazer se ouvir e interrompia sempre a melhor parte do sonho. Mas eu não percebia donde vinha, não combinava com a praia paradisíaca que via a minha frente. E, assim, continuei por um longo período de tempo a repetir a sequência de imagens da praia, que era interrompida por aquele som…que era mesmo...IRRITANTE.
Desisti então de completar aquela sequência de imagens, e abri os olhos de devagar: uma parede branca, um placard cheio de post it amarelos, uma mala arrebentada pelas costuras, um despertador…num acto muito natural carreguei num botão que brilhava. O som parou, o baralho parou, por um segundo senti que poderia voltar aquela praia paradisíaca, mas foi o segundo mais curto da minha vida, pois uma parede branca, um placard, uma mala e um despertador só significa uma coisa: as férias acabaram.
Saltei da cama, estava atrasada para o primeiro dia de aulas. Fiz uma careta, porquê a mim? Mas não era só mim de verdade, (mas todos nós temos a necessidade de nos vitimizar e às vezes sabe bem) olhei para a cama do lado e a Danna, minha parceira de quarto, já lá não estava. Sinal que me tinha de despachar. Estava atrasadíssima. Vesti as minhas calças de ganga escuras que estavam em cima da cama e procurei na minha mala uma t-shirt vermelha, mas era como encontrar um tesouro dos piratas, por isso decidi vestir o top azul-turquesa que estava no topo da mala. Corri para a casa de banho lavei os dentes e a cara, enquanto calçava as minhas sapatilhas pretas e procurava a minha carteira.
Durante o caminho para a faculdade vangloriei-me pela rapidez e agilidade, aproveitando sempre para vitimizar - me pelo facto de estar de novo naquele lugar, às portas da minha faculdade. As portas do inferno, assim está melhor. Entrei para o auditório onde no primeiro dia é feita uma “pequena”, segundo o reitor, apresentação da faculdade e do ano lectivo que se aproxima. Procurei, por entre milhares de pessoas, caras conhecidas. Encontrei algumas que fiz questão de cumprimentar, mas não era aqueles que eu procurava. Procurava a Danna, ou a Adela, ou o Adam, ou o Brad. Procurei-os um a um, mas nada. Encostei-me, então, a parede do fundo da sala para revistar a minha carteira, encontrei o meu telemóvel. Desligado. Voltei, novamente a carteira e encontrei o meu carregador do telemóvel.
Enquanto, saia da sala reparei nalguns alunos que se destacavam pelo entusiasmo, enquanto ouviam o reitor a elogiar a faculdade e a dizer quanto é importante a disciplina e o rigor. Eram caloiros, de certeza absoluta. Dirigi-me, então, para a biblioteca, não eu não masoquista, mas a biblioteca é uma sala revestida de fichas eléctricas e eu precisava de carregar o meu telemóvel. Não foi difícil encontrar uma, coloquei o telemóvel a carregar, mas mesmo assim não consegui liga-lo. Tinha que esperar, e como a funcionária estava a olhar para mim decidi que o melhor seria procurar um livro. Encaminhei-me na direcção de uma estante que estava extravagantemente decorada, notei uma exaltação na funcionária quando me viu a pegar no livro que ocupava todo o móvel.
Não queria acreditar! Na capa do livro estava a fotografia do meu professor, Mr. Albert, e o título era Queres ser um bom advogado? Eu digo-te como! Não contive uma pequena gargalhada. Sentei-me a foliar o livro, não resisti. As 217 páginas do livro baseavam-se num elogio que o Mr. Albert fez…tentei adivinhar…a ele próprio, a quem mais? Elogiava-se por ser um óptimo advogado, um extraordinário advogado. A parte em que ele explica como ser um bom advogado é que faltou ao livro. Mas nada que eu não estivesse habituada, afinal ensinamentos foi o que faltou nas aulas do Mr. Albert o ano inteiro.
-Hum, hum…posso? – desviei o olhar do livro. Era um rapaz um pouco mais velho, devia frequentar o 4º ano. Tinha o cabelo castanho claro e os olhos verdes. Nunca o tinha visto, infelizmente.
-Podes. – respondi. Ele sentou-se na minha mesa e perguntou:
-És aluna do Mr. Albert?
-Sim, fui o ano passado, e com o azar que me persegue vou voltar a ser. - revirei os olhos. Ele deu uma pequena gargalhada.
-Eu sou novo aqui, podes me descrever que como eram as aulas? – novo?! Bem me parecia.
- Com um mau professor, convencido e presunçoso só podes ter um tipo de aulas: BAH! Se tiveres a tempo de anular a cadeira, não hesites. – Ele sorriu e disse:
-Ok, obrigado. Vou indo. – Será que fui muito antipática, se calhar não devia ter dito as coisas desta maneira. Ele levantou-se, mas eu não resisti:
-Onde vais? – Reparei que ele ficou surpreso pela minha pergunta, mas respondeu:
-Para o auditório. Vemo-nos por aí. – Virou-me costas.
- “Vemo-nos por aí”? – sussurrei.
Fechei o livro e foi tentar ligar, outra vez, o meu telemóvel. Finalmente consegui. Tinha 3 chamadas não atendidas e uma sms : “ ‘Tamos na praia.”. Tratei logo de responder a mensagem: “Vemo-nos por aí.”